HQ: Deus, essa gostosa – de Rafael Campos Rocha

deus-essagostosa-capaNão é de hoje – nem de ontem e nem do século passado – que se discute, independente da religião, a forma que Deus deve ter. Alguns creem no cara de barba branca e roupa que lembra uma estopa grande, há ainda os que o enxergam como uma luz incrível e indecifrável. Não importa. Só se sabe que ele é nome mais lembrado seja nos bons momentos como nos ruins. Ele é o responsável em resolver todos os problemas murmurados e vá lá, tem que ter um pouco de cinismo para aproveitar todo esse poder. E aí que entra o quadrinista e artista plástico Rafael Campos Rocha e a sua Deus, essa gostosa (Quadrinhos na Cia, 2012).

“Deus é Brasileiro” já diria um velho ditado popular de nossas terras. Rafael Campos traz Deus com ares de heroína, mulher livre, independente, negra, cínica, dona de um sex shop que sonha em “pegar” o Diabo e casada com o Carlos, que topa tudo. Tem como gostar menos? Não, não tem. A personagem utiliza uma máxima feminista para dizer que Deus – sempre acompanhado de um artigo masculino na sua frente – na verdade é bem diferente de um cara barbudo com ares de bondade. Deus jamais sairia tão impune aos seus próprios desejos e poderes que o acompanham. Você mesmo, conseguiria?.

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São sete dias na vida de Deus, afinal o mundo foi criado nesse período. Nada mais justo do que mostrar todo o cotidiano e grandeza dessa mulher que leva uma vida aparentemente pacata e muito interessante. Dividido em capítulos mostrando dia após dia, o quadrinho ora diverte pelas referências como tomar uma cerveja com o Diabo – ela não tem nada contra ele e ainda discutem as peripécias de ambos com a humanidade – ou ainda assistir o bom e velho futebol acompanhada de velhos imortais como Bakunin e Marx discutindo o esporte a sombra do comunismo e anarquismo.

Não sei se encontrarei um adjetivo menos redundante para o traço do Rafael Campos do que “bem brasileiro”. Um traço que aparentemente te engana pela simplicidade que quando visto no todo da página demonstra uma riqueza de detalhes incrível. Destaco as roupas e as camisetas que Deus usa ou toda a sua onipotência de usar o cabelo que lhe convém. Apesar de Rafael Campos usar cor nas tiras de Deus para o jornal, na graphic novel as cores só aparecem na capa o que dá ao enredo um tom mesmo de documentação dos sete dias ocupados na vida de Deus.

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A ideia de Deus, essa gostosa nasceu de uma lista de e-mails de Rafael, acabou indo parar nas páginas da Ilustríssima, onde pequenos acontecimentos cotidianos se tornam ótimos temas para Deus, como você pode ver na tira abaixo sobre o famigerado “beijaço” contra o pastor Feliciano. Aí que ela ganhou uma graphic novel mais elaborada que brinca com os sete dias necessários para se criar o universo, ou melhor, aproveitá-lo de todas as formas.

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A brincadeira com a onisciência de Deus é que traz alguns pontos mais sérios e até filosóficos para o humor do quadrinho. Por exemplo, você pode notar isso no incrível começo do terceiro dia em que ela está nadando em um lago de jacarés – possivelmente em alguma região inóspita do planeta tipo uma savana – simplesmente desfrutando livre o que ela criou. Ou no quarto dia em que ela empreende uma bela viagem ao universo fugindo do cotidiano, trazendo belos quadros com questionamentos de como ela pode ter criado isso tudo desde uma pequena explosão numa escuridão até toda a evolução de uma raça.

Provavelmente muita gente pode torcer o nariz para Deus, essa gostosa, começando pelo título, além do que encontra na HQ como cenas de sexo e uma personagem descarada bem ao estilo de um Milo Manara da terra brasilis. Mas a verdade é que Deus é bastante feminista, libertária, dona de si e o melhor, comanda todo o resto da humanidade.

Rafael Campos Rocha

Rafael Campos Rocha

Para aumentar a curiosidade você pode ler um trecho da HQ no site da Companhia das Letras

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4 pensamentos sobre “HQ: Deus, essa gostosa – de Rafael Campos Rocha

  1. Eu li esse livro ( na Saraiva, acredita? Sentei pra passar o tempo e acabei lendo todo! ) e confesso não ter entendido meus sentimentos em relação a ele… Ora acho que gostei muito, ora acho que nháá, ora acho que amei…
    Mas achei super interessante a proposta de um deus diferente do “comum”, um deus que transa, que se masturba, que é bonito, que luta boxe. Achei isso muito muito legal!
    E destaque para as camisas dela! A-mei!
    =D
    Adorei o post!

  2. Essa HQ é simplesmente sensacional. Acabei de ler sua resenha e já fiquei com uma vontade danada de debruçar sobre o livro mais uma vez! 🙂

    • Verdade, Eduardo. Eu mesma acho que vou reler! hahaha. O Rafael tem um ótimo humor e brincar com “Deus” não é bem assim e ele faz isso muito bem.

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