“Por Detrás das Cortinas”, de Messaline Raverdy e a poética do cerzir.

Se, como escreveu Susan Sontag, “tudo existe para terminar em uma foto”, o cinema é a imagem em movimento da memória fatiada. O longa de estreia da realizadora Messaline Raverdy, Por Detrás das Cortinas (Derrière les Volets, 2018), é a justificativa de tudo existir para terminar em imagem. Numa bela investigação de uma história de família, o filme trata das gerações de mulheres que circularam no entorno da empresa Raverdy et Cie, fundada pela família ainda no século XIX.

As mãos da realizadora que abrem caixas, separam materiais guardados, recortam e animam ilustrações é o ritmo marcado de Por Detrás das Cortinas. Você é bem-vindo a esse universo que, mesmo acontecendo em um lugar fora das nossas geografias afetivas, é um dispositivo para nossos próprios recortes investigativos. As mãos de Messaline conduzem avidamente as lembranças e nos apresentam os objetos um a um, levando-nos a descobrir quem eram a avó e as operárias, reconstruindo seus lugares e as ausências ocupadas por elas mesmas. E em se tratando de ausência, o avô, que era quem comandava a empresa, é uma sombra delineada, fugidia pelos compromissos e vida atribulada. Quando Messaline nasce, o avô morre, quando seu filho nasce, é a vez de outro membro partir. O que a diretora nos revela é o preenchimento constante da história pela câmera.

É através dos olhos da matriarca, olhos que nesse momento captam menos a luz do dia e logo tendem a se fechar, é que o uso de múltiplos suportes funciona para embalar as afetividades filmadas. A câmera Super-8, por exemplo, com o leve desfoque e saturação das cores, diz muito sobre o que fica do passado, tratando as imagens de forma onírica quase que como um filme mudo. Nada do que nos lembramos cotidianamente é nítido, tudo é fotografia da memória. Ou seja, é uma cena organizada que quebra o momento real, aquele que nunca mais nos lembraremos exatamente. Os recortes filmados de perto são comoventes, tocam o que nos é mais caro sobre o apego aos objetos e o filme os manipula habilmente, convidando-nos a colar junto.

Mas além disso, nos convida a olhar para além das metafóricas cortinas fechadas. As mulheres da família Raverdy não são as únicas protagonistas do longa, as operárias da fábrica desempenham um papel fundamental de troca de memórias e construção da subjetividade de mulheres de diferentes décadas e gerações. Se os portões da empresa eram um mistério para quem via de fora – o caso de Messaline, que nasceu depois ou da avó que era destinada apenas ao papel de esposa – essas mulheres contam suas peculiaridades cotidianas, brincadeiras e revelam um avô diferente para a diretora. É então que a avó ganha outro contorno, sendo a sua própria memória um novo ponto de partida.

A diretora conta que o processo de realização foi uma construção, como se fosse um diário que começa de um jeito e conforme os dias passam os recortes e escritos tornam-se densos, menos preocupados com uma estética limpa e uniforme, mostrando-se reveladores. O diálogo constante com o objeto filmado e a observação de si mesma faz que o filme comece como documentário e termine como uma reflexão muito séria sobre a importância de narrativas afetivas que não tenham medo de parecerem pessoais e mesmo assim nos colocarem (espectador e filme) em contato de forma muito tênue. Essa talvez seja uma das características mais interessantes do cinema de autoras: a liberdade de se ater em suas próprias subjetividades, criadas a partir de poéticas muito particulares. A colagem, o uso de objetos de afetos e a liberdade de se colocar em cena são algumas experimentações necessárias para investigar modos próprios de filmar, considerando a intertextualidade a agulha que cerze o filme completamente.

Um homem da platéia pergunta por que há tantas mulheres no filme, disfarçando um questionamento que, na verdade, é sobre a ausência de um homem diante da gravidez de quem filma. Messaline Raverdy, justamente, busca nos fragmentos familiares as cenas para filmar outra narrativa, outras potencialidades e a resposta, nesse momento, só pode ser encontrada nos olhos da avó, nos relatos das operárias e atrás das cortinas fechadas das carmelitas. Mesmo com tudo montado e editado, a narrativa não termina nos créditos.

Filme assistido durante o 7º Olhar de Cinema, na Mostra Novos Olhares.

Você pode assistir ao debate feito na primeira exibição do filme no 7º Olhar de Cinema, filmado pelo Cineclube Delas.

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